Ela vem descendo a rua. Todos dizem que é insensato andar pelo lugar aquela hora da noite, mas ela decide confiar na sorte. O formato é o de um vale: uma descida íngreme, e em seguida uma longa subida. Ao longe ela vê luzes, e ouve muitas vozes. Aproveita a descida para correr um pouco e tentar chegar logo em casa. E pronto, agora vem a parte difícil: subir o morro. Andando lentamente, ela sente os músculos das pernas se cansarem, mas não há opção senão andar sem parar. A noite é quente, abafada, mas a idéia de chegar ao topo e sentir ao menos uma leve brisa noturna a anima. E durante a caminhada ela observa os moradores.
Um cheiro de comida domina o ar. Um bar em uma esquina reúne diversos homens, que falam alto e com a voz pastosa. Há uma TV que exibe um jogo de futebol qualquer. Do outro lado da rua, algumas mulheres se sentam na calçada e conversam. Uma delas segura um bebê de fraldas que não pára quieto. Alguns meninos um pouco maiores brincam próximo às mães. Estão todos sujos, descalços e não vêem problema em alisar o chão e depois colocar a mão na boca. As mães gritam para que eles saiam da rua. Ninguém parece perceber que a garota vai subindo a rua.
Um grupo de moços se aglomeram num canto mais afastado do alvoroço. Estão fumando um cigarro de cannabis: o cheiro agora impregna o ar. Enquanto a garota sobe, uma velha gorda vem na direção contrária, carregando sacolas. Então ela ouve vozes agudas e risadinhas: um par de meninas que parecem ter a sua idade mas que provavelmente não têm mais que 14 anos. A maquiagem e as roupas chamativas enganam.
Agora um barulho de água. Estranho. Um olhar para o lado explica tudo: esgoto a céu aberto. Agora uma fragrância definitivamente nojenta invade suas narinas. Mas as pessoas que moram ali não parecem sentir. Ou sentem e ignoram. Um garotinho num patinete passa veloz pela garota. Ela continua subindo. Agora está quase no fim. O suor escorre pela testa e a mochila pesa nas costas.
Ao passar pela última casa da rua, ela vê um grupo de senhoras cantando uma música conhecida, que a faz se lembrar muito nitidamente da época em que ia com sua mãe às novenas no bairro. Uma nostalgia muito conhecida a envolve. Saudade de casa. Pois bem, uma breve parada ao fim da subida. Mais uns 5 minutos de marcha e já estará dentro de seu quarto. A favela fica pra trás, e ela volta para o mundo acadêmico e para as preocupações universitárias. Duvida muito que a tenham visto passar, mas mesmo assim agradece por mais uma vez a sorte a ter favorecido.
(*Finalmente o texto baseado no meu caminho da roça. As coisas escritas eu realmente vi, ouvi, senti. Juntei tudo e deu isso. Desculpa pela minha falta de talento literário, mas não ia ter o mesmo sentido se eu não tivesse escrito assim.)
falta de talento literário?
ResponderExcluirme poupe vai!
Kika não era para contar estas partes, rsrsr, bjos, ti amo.
ResponderExcluirhahaha aqui não tem perigo! (eu acho né...)
ResponderExcluiré falta de talento sim! essa minha pretensão de escrever contos terminou aqui! haha
ResponderExcluiraaaaaaaah =(
ResponderExcluirnão sei pq me identifiquei com a protagonista do conto! bjoo
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